Manejo de Resistência de Plantas Daninhas

Manejo de Resistência de Plantas DaninhasA ampla variabilidade genética é uma das principais características das plantas daninhas que permite a adaptação e a sobrevivência dessas espécies em diversas condições ambientais e do agroecossistema. A principal ferramenta utilizada pelos produtores no controle destas são os herbicidas. E devido à utilização intensiva nas últimas décadas, algumas populações de plantas daninhas foram selecionadas em resposta ao distúrbio ambiental provocado pela pressão de seleção dos herbicidas, com a seleção de biótipos resistentes. Entre as principais conseqüências da resistência pode-se citar a restrição ou inviabilização da utilização dos herbicidas, as perdas de rendimento e qualidade dos produtos agrícolas e os maiores custos com o controle.

A resistência de plantas daninhas a herbicidas é a capacidade natural e herdável de alguns biótipos, dentro de uma determinada população, de sobreviver e se reproduzir após a exposição à dose de um herbicida, que seria letal a uma população normal (suscetível) da mesma espécie (Christoffoleti e López-Ovejero, 2008).

Biótipo é definido por Kissmann (2003) como um grupo de indivíduos com carga genética semelhante, porém pouco diferenciado da maioria dos indivíduos da população. No caso de plantas daninhas resistentes a herbicidas é caracterizado, normalmente, apenas pela diferenciação genética que confere a característica de resistência. De acordo com Heap (2005), para que um biótipo seja considerado como resistente é necessário que sejam demonstrados os seguintes critérios: (I) obedecer plenamente a definição de resistência; (II) confirmação de resultados usando protocolos científicos adequados; (III) a resistência deve ser herdável; (IV) deve ser mostrado o impacto prático da resistência no campo; (V) identificação do problema em nível de espécie de planta daninha, não como resultado de seleção artificial (tecnologia de DNA recombinante, por exemplo).

Atualmente, no Brasil, existem quatro espécies de plantas daninhas com casos relatados de biótipos resistentes ao glifosato, sendo elas: Lolium multiflorum, Conyza bonariensis, Conyza canadensis e Digitaria insularis.

Assim, o aparecimento de biótipos de plantas daninhas resistentes aos herbicidas está condicionado a uma mudança genética na população, imposta pela pressão de seleção e causada pela aplicação repetitiva do herbicida na dose recomendada (Figura 1). O surgimento da resistência aos herbicidas é identificado, geralmente, quando 30% das plantas mostram-se resistentes (controle inferior a 80%).

Seleção de Plantas Resistentes

Figura 1. Representação esquemática da mudança genética na população suscetível para uma população resistente, provocada pela pressão de seleção imposta pelo herbicida (Christoffoleti e López-Ovejero, 2008).

As características bioecológicas das plantas daninhas que favorecem a seleção de biótipos resistentes em uma área são: ciclo de vida curto, elevada produção de sementes (densidade de plantas no banco de sementes), baixa dormência da semente, várias gerações reprodutivas por ano, extrema suscetibilidade a um determinado herbicida e grande diversidade genética (Christoffoleti et al., 1994; Vidal e Fleck, 1997, Vargas et al., 1999). Sendo assim, não é qualquer planta daninha que tem potencial para que biótipos resistentes a determinado herbicida sejam selecionados rapidamente, ou seja, algumas espécies apresentam biótipos selecionados com maior freqüência do que outras, as quais raramente teriam seus biótipos resistentes selecionados. Os gêneros com maior número de biótipos resistentes no mundo são Lolium, Avena, Amaranthus, Chenopodium, Setaria, Echinochloa, Eleusine, Kochia e Conyza (Weed Science, 2009). Entre as práticas culturais que podem levar a essa seleção, destacam-se as práticas de manejo de plantas daninhas através da utilização exclusiva de herbicidas; a aplicação repetitiva do mesmo herbicida ou de herbicidas com o mesmo mecanismo de ação durante diversos anos agrícolas; sistemas de produção que não praticam com freqüência a rotação de culturas (monocultura) e herbicidas; pequena utilização de controle mecânico de plantas daninhas ou a não eliminação dos escapes de controle do herbicida; e não utilização de seqüência de herbicidas para controle de plantas daninhas em uma cultura (Christoffoleti et al., 1994).

Quando ocorrem plantas daninhas resistentes aos herbicidas em uma área, com densidade suficiente para limitar a produção das culturas agrícolas, há necessidade de mudanças nas práticas de manejo utilizadas. Desta forma, o manejo de plantas daninhas em uma propriedade deve ser levado em consideração em longo prazo, através de um sistema integrado de controle de produção que envolva métodos culturais, físicos, mecânicos, químicos, além de outros. Portanto, é necessário alterar constantemente as práticas normalmente utilizadas para o controle de plantas daninhas, visando evitar ou retardar o aparecimento de resistentes (Christoffoleti e López-Ovejero, 2008). Algumas práticas para prevenir e/ou manejar a resistência são: I) Manejo apropriado dos herbicidas (Utilizar herbicidas com pouca atividade residual no solo; Otimização da dose, época e número de aplicações; Minimizar a aplicação de herbicidas específicos, evitando o uso contínuo de herbicidas com mesmo mecanismo de ação; Rotação de herbicidas com mecanismos de ação diferenciados); II) Rotação de culturas; III) Monitoramento após aplicação dos herbicidas (Monitorar manchas de plantas daninhas com padrão diferente com problemas de aplicação; Eliminar focos iniciais de resistência (evitar produção de sementes); IV) Utilizar práticas não químicas que objetivem o fortalecimento da capacidade competitiva da cultura, representada pelo seu rápido estabelecimento e desenvolvimento; V) Prevenção da disseminação de sementes através do uso de equipamentos limpos e sementes certificadas, entre outros.

Literatura citada

Christoffoleti, P.J.; López-Ovejero, R.F. 2008. Resistência das plantas daninhas a herbicidas: definições, bases e situação no Brasil e no mundo. In: Christoffoleti, P.J. (Coord.). Aspectos de resistência de plantas daninhas a herbicidas. 3.ed. Campinas: HRAC-BR, 9-34.

Christoffoleti, P.J.; Victoria Filho, R.; Silva, C.B. 1994. Resistência de plantas daninhas aos herbicidas. Planta Daninha. 12(1): 13-20.

Heap, I. 2005. Criteria for configuration of herbicide-resistant weeds - with specific emphasis on confirming low level resistance. Disponível em: http://www.weedscience.org

Kissmann, K.G. 2003. Resistência de plantas daninhas a herbicidas. Disponível: http://www.hrac-br.com.br/arquivos/texto_reisitencia_herbicidas.doc

Vargas, L.; Da Silva, A.A.; Borém, A.; Rezende, S.T.De; Ferreira, F.A.; Sediyama, T. 1999. Resistência de plantas daninhas a herbicidas. Viçosa, MG:Jard, 131p.

Vidal, R.A.; Fleck, N.G. 1997. Análise do risco da ocorrência de biótipos de plantas daninhas resistentes aos herbicidas. Planta Daninha. 15 (12): 152-161.

Weed Science. 2009. International survey of herbicide resistant weeds. Disponível: http://www.weedscience.org